A história de Independência do México levou 11 anos para finalmente poder ser comemorada, mas até hoje, milhões de mexicanos se reúnem para uma das maiores celebrações nacionais do país.
Bandeiras tomam as ruas, praças ficam lotadas e, no centro da festa, uma voz ecoa: “¡Viva México!”
Mas a história por trás dessa celebração começou muito antes das festas.
Na madrugada de 16 de setembro de 1810, o padre Miguel Hidalgo y Costilla convocou a população de Dolores, na então Nova Espanha, a se rebelar contra o domínio espanhol.
O episódio ficou conhecido como Grito de Dolores e marcou o início da Guerra de Independência do México.
O conflito, porém, não terminou naquele dia, foram 11 anos de guerra, revoltas, mudanças de liderança, alianças e disputas sobre o futuro do território.
A independência só seria consumada em 1821.
O México antes da independência
No início do século XIX, o território mexicano fazia parte do Vice-Reino da Nova Espanha, uma das principais possessões do Império Espanhol.
A sociedade era profundamente desigual.
Os chamados peninsulares, espanhóis nascidos na Europa, ocupavam posições privilegiadas na administração colonial, já os criollos, descendentes de espanhóis nascidos na América, tinham maior poder econômico, mas enfrentavam restrições políticas.
Na base da estrutura social estavam indígenas, mestiços, afrodescendentes e outros grupos submetidos a diferentes formas de exploração e desigualdade.
Essa sociedade hierarquizada alimentava tensões que seriam fundamentais para o surgimento do movimento de independência.
Independência do México e crise da Europa
A independência mexicana também precisa ser entendida dentro de uma crise que começou do outro lado do Atlântico.
Em 1808, Napoleão Bonaparte invadiu a Península Ibérica, e o rei espanhol Fernando VII foi afastado do poder. José Bonaparte, irmão de Napoleão, foi colocado no trono espanhol.
A crise provocou uma pergunta em todo o império: quem deveria governar os territórios espanhóis na América enquanto o rei estava fora do poder?
Na Nova Espanha, grupos começaram a organizar conspirações e reuniões políticas.
Entre os envolvidos estavam personagens que posteriormente se tornariam símbolos da independência, como Miguel Hidalgo, Ignacio Allende, Juan Aldama e Josefa Ortiz de Domínguez.
O movimento inicialmente não tinha necessariamente como objetivo imediato criar um México independente.
Havia diferentes propostas, incluindo a defesa da autonomia e a oposição ao domínio de autoridades consideradas ilegítimas, mas os acontecimentos aceleraram.
O Grito de Dolores na Independência do México
A conspiração de Querétaro acabou descoberta em setembro de 1810.
Josefa Ortiz de Domínguez conseguiu avisar os conspiradores de que as autoridades estavam prestes a prendê-los, e diante do risco de repressão, os líderes decidiram antecipar o levante.
Na madrugada de 16 de setembro de 1810, Miguel Hidalgo foi até a igreja de Dolores, no atual estado de Guanajuato, e convocou a população para se levantar contra o governo colonial.
O toque dos sinos chamou moradores para o local.
Foi quando campesinos, artesãos e pequenos comerciantes começaram a aderir ao movimento, que rapidamente cresceu.
Esse episódio ficou conhecido como Grito de Dolores.
E é aqui que surge uma das maiores curiosidades da história mexicana: embora o país comemore o acontecimento na noite de 15 de setembro, o início do movimento ocorreu na madrugada do dia 16.
Por que o México comemora no dia 15?
A tradição atual começa na noite do dia 15 de setembro, quando o presidente mexicano realiza a cerimônia do Grito de Independência.
A prática foi consolidada ao longo do tempo e ganhou força especialmente a partir do final do século XIX.
Em 1896, o presidente Porfirio Díaz determinou a transferência para a Cidade do México do sino associado ao chamado de Hidalgo.
Desde então, a cerimônia passou a ser realizada no Palácio Nacional, na noite de 15 de setembro.
Por isso, as ruas ficam cheias na noite do dia 15, enquanto 16 de setembro é oficialmente a data que marca o início da Independência mexicana.
Miguel Hidalgo e o começo da guerra
Depois do Grito de Dolores, Hidalgo e seus seguidores avançaram por diferentes cidades.
O movimento cresceu rapidamente e se transformou em uma grande revolta popular, mas a força numérica não significava necessariamente organização militar.
As tropas insurgentes enfrentaram o Exército Realista, ligado à monarquia espanhola.
Apesar de algumas vitórias importantes, os rebeldes sofreram derrotas e começaram a perder força, o que levou Hidalgo a ser capturado em 1811 e executado naquele mesmo ano.
José María Morelos assume a liderança
Após a morte de Hidalgo, outro sacerdote ganhou destaque: José María Morelos y Pavón.
Morelos reorganizou o movimento insurgente e apresentou um projeto político mais estruturado.
Em 1813, durante o Congresso de Chilpancingo, apresentou o documento conhecido como Sentimientos de la Nación.
O texto defendia princípios como a soberania popular, a independência, o fim de privilégios sociais e também defendia a abolição da escravidão.
A luta, portanto, já não era apenas contra o domínio espanhol, existia também uma disputa sobre que tipo de sociedade deveria surgir depois da independência.
Morelos foi capturado e executado em 1815 e mais uma vez, a independência parecia distante.
Independência do México: a guerra continua
Depois da morte de Morelos, a resistência insurgente perdeu parte de sua força organizada, mas não desapareceu.
Entre os líderes que continuaram lutando estava Vicente Guerrero, que manteve a resistência no sul da Nova Espanha.
Ao mesmo tempo, o cenário político internacional mudou.
Na Espanha, acontecimentos políticos e militares enfraqueceram a estrutura que sustentava o domínio colonial.
E, dentro da própria Nova Espanha, grupos que antes defendiam a manutenção da ordem começaram a perceber que a independência poderia ser uma alternativa para preservar seus próprios interesses.
É nesse momento que surge uma das alianças mais surpreendentes da história mexicana.
Iturbide e Guerrero: antigos inimigos se unem
Em 1821, o militar Agustín de Iturbide, que havia lutado inicialmente ao lado das forças realistas, entrou em negociação com Vicente Guerrero, um dos principais líderes insurgentes.
Os dois lados tinham trajetórias e objetivos diferentes.
Mas encontraram pontos em comum.
Em 24 de fevereiro de 1821, Iturbide proclamou o Plano de Iguala, baseado em três princípios conhecidos como as Três Garantias:
- Religião: defesa da religião católica;
- Independência: separação da Nova Espanha em relação à Espanha;
- União: união entre os diferentes grupos da sociedade.
Foi criado então o Exército Trigarante, reunindo antigos realistas e insurgentes. A guerra estava chegando ao fim.
A entrada na Cidade do México
Em agosto de 1821, foram assinados os Tratados de Córdoba entre Iturbide e Juan O’Donojú, representante da Coroa espanhola na Nova Espanha.
Pouco depois, em 27 de setembro de 1821, o Exército Trigarante entrou na Cidade do México.
A independência mexicana estava consumada.
No dia seguinte, foi assinado o Ato de Independência do Império Mexicano.
Assim terminava uma guerra iniciada 11 anos antes com o Grito de Dolores.
O México nasceu como uma monarquia
Existe outra curiosidade pouco conhecida.
A independência não criou imediatamente a república mexicana que conhecemos hoje.
O novo país nasceu como o Primeiro Império Mexicano. Agustín de Iturbide tornou-se imperador em 1822, assumindo o título de Agustín I.
Seu governo, entretanto, enfrentou forte oposição e durou pouco e em 1823, Iturbide abdicou.
No ano seguinte, a Constituição de 1824 estabeleceu a República Federal dos Estados Unidos Mexicanos.
Ou seja: a independência não encerrou as disputas políticas. Na verdade, abriu uma nova etapa da história mexicana.
A independência foi uma revolução popular?
Sim, mas a resposta precisa de contexto.
O movimento iniciado por Hidalgo mobilizou grandes parcelas da população. Indígenas, mestiços, camponeses, artesãos, trabalhadores, afrodescendentes e mulheres participaram de diferentes maneiras da guerra.
O Instituto Nacional de Estudos Históricos das Revoluções do México descreve o processo como uma grande revolução popular que mobilizou dezenas de milhares de pessoas.
Mas os objetivos dos participantes não eram necessariamente iguais.
Para alguns, a luta significava independência política.
Para outros, representava a possibilidade de combater desigualdades, privilégios e formas de exploração existentes na sociedade colonial.
Para grupos das elites, a independência também poderia representar uma maneira de assumir maior controle político e econômico.
Por isso, a Independência do México foi resultado da convergência e também do conflito entre diferentes interesses.
Qual é a importância do 16 de setembro?
O 16 de setembro de 1810 é considerado o início da Independência do México. Já o 27 de setembro de 1821 marca sua consumação.
São duas datas fundamentais para entender o processo.
A primeira representa o início da revolta liderada por Hidalgo. A segunda simboliza a entrada do Exército Trigarante na Cidade do México e o fim da guerra de independência.
Essa diferença é importante porque mostra que a independência mexicana não aconteceu em um único dia.
Ela foi construída durante 11 anos de conflitos e transformações políticas.
