E se o problema não for que os jovens não gostam de histórias, mas que a literatura ainda não encontrou a melhor forma de conversar com eles?
Um adolescente pode passar horas explorando um universo de RPG, acompanhando uma história em um videogame ou participando de uma comunidade nas redes sociais. Mas, diante de um livro, pode ter dificuldade até mesmo para começar.
A questão não necessariamente está na falta de interesse pela narrativa. Afinal, games, animes, filmes, quadrinhos e RPGs também contam histórias, muitas vezes complexas, longas e cheias de personagens.
A diferença está na forma como essas histórias são apresentadas.
É justamente nesse encontro entre literatura, cultura pop, tecnologia e jogos que surge uma possibilidade interessante para aproximar novos leitores dos livros.
Por que os videogames conseguem prender a atenção dos jovens?
Os conteúdos digitais oferecem estímulos imediatos.
Um videogame apresenta objetivos, recompensas, desafios, personagens, sons, imagens e interação. O jogador não apenas acompanha a história: ele participa dela.
Nas redes sociais, o processo é ainda mais rápido. Curtidas, comentários, vídeos curtos, notificações e recomendações criam um fluxo constante de conteúdo.
O livro impresso funciona de outra maneira, ele exige que o leitor pare, abra a história, concentre-se e construa mentalmente aquilo que está sendo narrado.
Isso não significa que o livro seja menos interessante, significa que o esforço inicial para entrar naquele universo é diferente.
Para uma geração acostumada à interação digital, começar uma obra literária pode parecer mais difícil quando não existe algum elemento capaz de despertar imediatamente sua curiosidade.
Literatura e jogos na prática
Entre literatura, arte, tecnologia e educação, Tchelo Andrade constrói uma trajetória que atravessa diferentes formas de contar histórias. Escritor, roteirista, ilustrador, game designer, educador patrimonial e produtor cultural, o autor acredita no poder da criatividade para transformar pessoas e aproximá-las de novas experiências.
Entusiasta do futuro, Tchelo escreveu Os Desígnios do Artífice movido pela convicção de que a arte e a literatura podem provocar mudanças, despertar reflexões e ampliar a maneira como enxergamos o mundo.
Nesta entrevista, vamos conhecer um pouco mais sobre sua trajetória, suas inspirações e a construção de Os Desígnios do Artífice, além de conversar sobre literatura, criatividade, tecnologia e os novos caminhos para contar histórias.
Por que você acha que um adolescente pode passar horas em um RPG ou videogame, mas tem dificuldade para começar um livro?
Os apelos e gatilhos que conteúdos digitais trazem de imediato tem muita vantagem sobre a mídia do livro impressa. Sem os incentivos certos, os livros parecem muito burocráticos, chatos, e requerem muito esforço para consumo; enquanto os jogos parecem mais descolados, atuais e fáceis de serem assimilados no predominante ecossistema digital.
O que a literatura tradicional pode aprender com os games e as redes sociais?
As novas tecnologias também podem ser positivas para o “fazer” literário, tendo em vista que novos autores ganharam espaço na cena graças ao financiamento coletivo em plataformas digitais. Esse modelo de lançamento independente era impensável há mais de 20 anos.
Da mesma forma, os games se popularizaram na internet graças a um acervo de coisas para serem consumidas “memes”, “músicas”, “fofocas”, etc.
Acho que a criação de comunidades em torno do livro (tal como acontece com os games e jogos de RPG) pode ser algo bastante aproveitável para o mercado editorial. E inclusive, este é um movimento que tenho visto ganhar cada vez mais força no Brasil. E que bom!
Você acredita que incorporar elementos da cultura pop pode funcionar como uma “porta de entrada” para a literatura?
Definitivamente! Veja bem, ao incorporar signos e elementos dos quais os leitores estão habituados o livro aumenta as chances de manter o seu leitor mais curioso a respeito.
Sabemos que a mágica da literatura é poderosa, mas requer um grau de proximidade e ao meu ver, quanto mais tempo um leitor passa próximo de um livro, mais efetiva essa mágica se torna.
Como sua experiência como game designer influenciou a construção de Os Desígnios do Artífice?
A experiência de game design foi definitiva pois facilitou o processo de “worldbuilding” (construção de mundo) já que estamos falando de um projeto de literatura multimídia.
O universo de “Desígnio” foi criado para que diferentes linguagens contassem histórias desse mesmo universo, a começar pelo romance “Os Desígnios do Artífice” e o jogo narrativo “O Desígnio-RPG”.
Há também planos para outros formatos como jogos de tabuleiro, artes visuais e cinema.
Por que utilizar fantasia, terror e elementos sobrenaturais para falar de violência urbana?
De outro modo eu não conseguiria.
Veja, levantar todos os dados, pesquisas e notícias a respeito de crimes verdadeiros do nosso mundo foi um processo muito doloroso para mim. Recentemente, descobri que escrevo como forma de me proteger da violência do mundo, mas isso só pode acontecer se eu puder me divertir no processo.
A fantasia é um instrumento poderoso que utilizo como combustível para contar histórias ficcionais divertidas e que também reforcem a minha esperança em mundos alegradores contrastando com o atual mundo de violência que vivo.
Por que referências a games, RPG, anime, quadrinhos e cinema conseguem criar identificação tão rapidamente com os jovens?
A cultura pop está estabelecida em nosso cotidiano há anos e é fruto do investimento de nações estrangeiras no seu próprio soft power. A fácil absorção e o fato de haver outros (e comunidades) com os quais você comente sobre esses conteúdos os tornaram constantes no imaginário das pessoas.
Sua experiência na Fundação CASA teve influência direta na criação do livro. O que você aprendeu trabalhando com adolescentes nesse contexto?
Foi a experiência mais transformadora da minha vida! Existe um Tchelo antes e depois da Fundação CASA. Foi lá que me dei conta da existência de um tipo de violência, que considerei uma das mais cruéis, que destrói sonhos, sobretudo de jovens de regiões periféricas.
O que nos torna tão diferentes das outras espécies é a capacidade de criar signos puramente subjetivos que nos auxiliam a entender nossa própria existência e como ela se conecta com o outro. Somos seres de empatia e de imaginação!
Então, se existe uma forma de violência que destrói isso em você, podemos dizer que essa violência está destruíndo também a sua humanidade.
Esse foi meu maior aprendizado, pois ajudou a transformar minha visão de mundo enquanto artista. Entendendo minhas necessidades e responsabilidades, sobretudo com a minha comunidade.
