Quando pensamos em Halloween, uma das primeiras imagens que aparece é a de uma abóbora iluminada por uma vela, com olhos triangulares e um sorriso assustador.
Mas existe um detalhe curioso nessa tradição: a jack-o’-lantern original não era feita de abóbora.
Antes de se tornar um dos maiores símbolos do Halloween nos Estados Unidos, a famosa lanterna era feita principalmente de nabos, especialmente na Irlanda.
E por trás do nome existe uma antiga lenda sobre um homem chamado Jack, condenado a vagar eternamente entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Quem era Jack?
A história de Jack aparece em diferentes versões do folclore irlandês. Uma das mais conhecidas fala de um homem chamado Stingy Jack, algo como “Jack Avarento”.
Segundo a lenda, Jack era um homem astuto e pouco confiável que acabou encontrando o próprio Diabo. Em uma das versões, Jack convenceu o Diabo a ajudá-lo em uma situação e conseguiu fazê-lo prometer que nunca levaria sua alma para o inferno.
O problema veio depois, quando Jack morreu, já que também não foi aceito no céu. Como havia feito um acordo que o impedia de ir para o inferno, ficou condenado a vagar pela escuridão.
O Diabo teria então dado a Jack uma brasa em chamas para iluminar seu caminho. Jack colocou a brasa dentro de um nabo esvaziado, o transformando em uma espécie de lanterna.
Foi assim que surgiu, segundo a tradição popular, o personagem conhecido como Jack of the Lantern, ou simplesmente Jack-o’-lantern.
É importante lembrar que essa é uma lenda, e não um acontecimento histórico comprovado. Existem diferentes versões da história de Jack, e a associação entre o personagem e a lanterna foi registrada em fontes do século XIX.
Halloween antes das abóboras
A parte mais curiosa da história é que os irlandeses realmente tinham o costume de esculpir vegetais para criar lanternas assustadoras.
Na Irlanda, especialmente durante as celebrações de Halloween, nabos eram esvaziados e recebiam rostos assustadores. Uma vela era colocada dentro para iluminar os desenhos.
O objetivo não era apenas decorar a casa, essas lanternas estavam associadas às crenças e tradições que cercavam o período do Samhain, uma importante celebração sazonal da Irlanda antiga, relacionada ao fim da colheita e à chegada do inverno.
Com o tempo, tradições relacionadas ao Samhain se misturaram a celebrações cristãs do calendário, contribuindo para o desenvolvimento do Halloween.
Na tradição popular, essa era uma época associada aos mortos, espíritos e ao sobrenatural.
Por isso, rostos assustadores esculpidos em vegetais tinham uma função simbólica: poderiam ser usados para assustar ou afastar espíritos indesejados.
O Museu Nacional da Irlanda preserva, inclusive, um exemplar conhecido como “ghost turnip”, uma lanterna feita de nabo que representa essa antiga tradição.
O objeto foi recebido pelo museu em 1943 e teria sido produzido seguindo um costume local que ainda era lembrado na região de Donegal.
E onde entram as abóboras?
A transformação aconteceu do outro lado do Atlântico. Durante o século XIX, imigrantes irlandeses levaram suas tradições e histórias para a América do Norte.
Lá, encontraram um vegetal que era muito mais fácil de esculpir do que os pequenos e duros nabos usados na Irlanda: a abóbora.
A abóbora já fazia parte da agricultura e da alimentação na América do Norte e oferecia uma vantagem enorme. Era grande, tinha bastante espaço interno e sua casca era relativamente fácil de cortar.
Assim, uma tradição que utilizava nabos acabou sendo adaptada à realidade americana.
Aos poucos, a abóbora esculpida passou a substituir o nabo e se tornou cada vez mais associada ao Halloween.
De tradição assustadora a símbolo do Halloween
A transformação não aconteceu de uma hora para outra, no século XIX e no começo do século XX, a celebração do Halloween foi ganhando espaço nos Estados Unidos, e as lanternas de abóbora passaram a aparecer em festas, casas e decorações.
Uma referência interessante aparece em um relato sobre uma festa de Halloween realizada em Atlanta, em 1892, que mencionava lanternas feitas de abóboras esculpidas com rostos.
A tradição também ganhou força porque combinava perfeitamente com o imaginário do Halloween.
Uma abóbora iluminada no escuro parecia uma pequena criatura observando quem passava.
E, enquanto a história original falava de Jack vagando pela noite com sua lanterna, a tradição americana transformou aquela antiga imagem em uma decoração que hoje pode ser encontrada em casas, festas, vitrines e até competições de escultura.
Por que o nome continuou sendo “Jack-o’-lantern”?
Mesmo quando o nabo foi substituído pela abóbora, o nome permaneceu.
A explicação tradicional relaciona Jack-o’-lantern ao personagem Jack, condenado a vagar pela escuridão carregando sua lanterna improvisada.
Existe, porém, outra possibilidade relacionada à própria expressão inglesa. O termo “jack-o’-lantern” também foi associado a luzes misteriosas que apareciam durante a noite em áreas rurais e pantanosas, fenômeno conhecido em inglês como will-o’-the-wisp.
Ou seja, a origem do nome também carrega uma mistura de folclore, linguagem popular e histórias sobrenaturais.
