Quando se fala em movimentos separatistas na Espanha, ou na Europa, a Catalunha costuma dominar as manchetes. No entanto, muito antes do auge do independentismo catalão, outra região já reivindicava o direito de formar seu próprio país: o País Basco.
Com uma língua única, uma cultura milenar e uma história marcada por conflitos políticos e violência, o País Basco continua sendo uma das regiões mais singulares da Europa. Mas afinal, por que parte dos bascos deseja a independência? E qual é a situação desse movimento atualmente?
Onde fica o País Basco na Espanha?
O País Basco está localizado no norte da Espanha, fazendo fronteira com a França e com o Golfo da Biscaia.
Na Espanha, a comunidade autônoma do País Basco é formada pelas províncias de Álava, Biscaia e Guipúscoa. Já o chamado “País Basco histórico” ou “Euskal Herria”, conceito cultural utilizado por muitos nacionalistas bascos, inclui ainda a comunidade autônoma de Navarra e três pequenas regiões do sudoeste da França. Essa divisão, porém, não corresponde a uma entidade política reconhecida internacionalmente.
Atualmente, a comunidade autônoma espanhola possui cerca de 2,2 milhões de habitantes.
Um povo muito mais antigo que a Espanha
Os bascos costumam afirmar que são um dos povos mais antigos da Europa Ocidental.
A principal razão para essa ideia é sua língua: o euskera.
Diferentemente do espanhol, do francês, do português ou do italiano, o euskera não pertence à família das línguas indo-europeias.
Até hoje, os linguistas não chegaram a um consenso sobre sua origem.
Por isso, ela é considerada uma língua isolada, sem parentesco comprovado com qualquer outro idioma vivo.
Essa característica fortaleceu, ao longo dos séculos, a percepção de uma identidade própria.
A perda da autonomia
Durante séculos, as províncias bascas possuíam leis e privilégios próprios, conhecidos como fueros, que lhes garantiam ampla autonomia administrativa e fiscal.
Essa situação começou a mudar no século XIX.
Após as chamadas Guerras Carlistas (1833–1876), o governo espanhol reduziu significativamente esses privilégios, fortalecendo a centralização do Estado.
Foi nesse contexto que surgiu o nacionalismo basco moderno.
Em 1895, Sabino Arana fundou o Partido Nacionalista Basco (PNV), defendendo que os bascos formavam uma nação distinta da Espanha.
A ditadura de Franco na Espanha
O movimento ganhou força durante a ditadura de Francisco Franco, que governou a Espanha entre 1939 e 1975.
O regime adotou uma política fortemente centralizadora.
Em diferentes períodos, o uso público do euskera foi restringido, símbolos regionais foram proibidos e manifestações culturais bascas sofreram repressão.
Essas medidas aumentaram o sentimento nacionalista entre parte da população.
O surgimento da ETA
Foi nesse ambiente que nasceu, em 1959, a ETA (Euskadi Ta Askatasuna, ou “País Basco e Liberdade”).
Inicialmente criada como um movimento de resistência ao franquismo, a organização passou a defender a independência por meio da luta armada.
Durante décadas, a ETA realizou atentados a bomba, assassinatos, sequestros e extorsões.
Segundo dados amplamente aceitos por historiadores, suas ações causaram mais de 850 mortes, além de milhares de feridos.
Entre as vítimas estavam policiais, militares, políticos, jornalistas, empresários e civis.
Ao mesmo tempo, operações antiterrorismo do Estado espanhol também foram alvo de críticas por violações de direitos humanos em alguns casos, especialmente durante os chamados “anos de chumbo” do conflito.
O fim da violência
Após anos de negociações e perda de apoio popular, a ETA anunciou em 2011 o fim definitivo da luta armada.
Em 2017, entregou suas armas às autoridades francesas.
No ano seguinte, em 2018, declarou oficialmente sua dissolução.
Desde então, o independentismo basco passou a atuar exclusivamente por meios políticos e democráticos.
O País Basco quer mesmo a independência?
A resposta é mais complexa do que parece.
Existem partidos claramente favoráveis à independência, como EH Bildu.
Outros, como o Partido Nacionalista Basco, historicamente defendem maior autogoverno e o reconhecimento da identidade nacional basca, embora suas posições sobre a independência possam variar conforme o contexto político.
As pesquisas de opinião mostram que a sociedade basca está dividida. Em diferentes levantamentos realizados nos últimos anos, o apoio à independência costuma oscilar e não representa uma maioria estável da população.
Em outras palavras, o desejo de independência existe, mas não é consensual.
O alto grau de autonomia atual
Hoje, o País Basco já possui um dos maiores níveis de autonomia da Europa.
Entre seus poderes estão:
- parlamento próprio;
- governo regional;
- polícia própria (Ertzaintza);
- sistema educacional parcialmente administrado pela comunidade;
- forte autonomia fiscal.
Diferentemente da maioria das regiões espanholas, o País Basco arrecada grande parte de seus próprios impostos e depois repassa uma contribuição ao governo central para financiar competências nacionais, como defesa e relações exteriores. Esse modelo, conhecido como Concierto Económico, é uma das características mais singulares da organização territorial da Espanha.
A cultura continua sendo o principal símbolo
Mesmo para muitos bascos que não defendem a independência, preservar a identidade cultural é considerado fundamental.
O euskera é ensinado nas escolas, festivais tradicionais continuam sendo celebrados e esportes típicos, como a pelota basca e competições de força rural (herri kirolak), permanecem populares.
Essa valorização da cultura ajuda a explicar por que a identidade basca continua tão forte.
Um debate que continua aberto
A discussão sobre a independência do País Basco hoje é muito diferente daquela das décadas de 1970 ou 1980.
A violência da ETA ficou no passado, e o debate passou a ocorrer principalmente por meio das instituições democráticas.
Enquanto alguns defendem que os bascos têm direito à autodeterminação, outros consideram que o atual nível de autonomia já atende às necessidades da região e que a permanência na Espanha oferece maior estabilidade política e econômica.
Independentemente da posição adotada, o País Basco continua sendo um dos exemplos mais marcantes de como história, língua e identidade cultural podem moldar debates políticos que atravessam gerações.
