Caminhar por uma rua em 1518 na cidade de Estrasburgo era tranquilo, até o dia que encontraram uma mulher dançando sozinha, sem música, sem descanso, como se algo invisível a obrigasse a mover o corpo. Isso é uma consequência da Peste ou apenas uma dança?
No começo, as pessoas acharam estranho, mas nada além disso. Porém, em poucos dias, dezenas se juntaram. Em poucas semanas, eram centenas. Dançando sem parar.
O que parecia apenas uma excentricidade rapidamente se transformou em um dos episódios mais bizarros da história: a famosa “Dança da Peste”, um surto coletivo que durou semanas e deixou médicos, autoridades e religiosos completamente perplexos.
Frau Troffea e os primeiros passos
A história começa em julho de 1518, quando uma mulher chamada Frau Troffea saiu de casa e começou a dançar freneticamente nas ruas. Ela não parecia feliz, nem animada, na verdade estava exausta, mas incapaz de parar.
Dançou por horas, depois por dias inteiros, até suas pernas sangrarem.
As pessoas assistiam tentando entender se era loucura, possessão ou algum tipo de doença. Só que, em vez de se afastarem, muitas começaram a imitar seus movimentos sem explicação.
Em menos de uma semana, 34 pessoas dançavam com ela. Em um mês, mais de 400 estavam vivendo o mesmo tormento.
Dança que mata: os efeitos físicos devastadores
Dançar sem parar por horas já é difícil. Agora imagine dias ou semanas em movimento contínuo. As pessoas começaram a sofrer:
- exaustão extrema
- desidratação
- falência cardíaca
- AVCs
- colapso muscular
Relatos da época dizem que muitos caíam mortos no meio da dança, literalmente. Não por magia ou feitiço, mas por puro esgotamento físico. Seus corpos simplesmente não aguentavam mais.
Os médicos da época
O mais curioso é que as autoridades tentaram resolver o surto… piorando tudo.
Os médicos acreditavam que a dança era causada por um “excesso de sangue quente”, uma espécie de febre emocional que só se curaria se a pessoa dançasse até expelir a doença.
Então eles:
- construíram palcos
- contrataram músicos
- permitiram que o surto crescesse
A ideia soava lógica na época, mas na prática foi um desastre. A música atraiu ainda mais gente e transformou o surto em evento público.
Cientistas modernos comparam essa decisão a tentar apagar um incêndio jogando gasolina.
Afinal, o que causou a Dança da Peste?
Até hoje, historiadores e pesquisadores discutem o que aconteceu em Estrasburgo. Não há uma única explicação, mas três teorias principais dominam os estudos:
Histeria coletiva
A região estava sem alimentos, com doenças e crises religiosas. As pessoas estavam emocionalmente fragilizadas. Muitos historiadores acreditam que a dança foi um episódio de transe coletivo causado por estresse extremo e crenças populares.
Ergotismo (intoxicação por fungo)
Alguns sugerem que o centeio da região estava contaminado com ergot, o fungo esporão-do-centeio (Claviceps purpurea) que causa alucinações parecidas com LSD e espasmos musculares.
Mas essa teoria não explica por que as vítimas dançaram de forma coordenada.
Crenças religiosas e medo do santo vingativo
Muitos habitantes acreditavam em São Vito, um santo que, segundo a tradição medieval, podia punir pecadores fazendo-os dançar sem parar.
A fé no poder desse santo pode ter criado uma espécie de “profecia autorrealizável”.
Provavelmente, o surto foi uma mistura de todos esses fatores: miséria, crença, estresse e um ambiente social explosivo.
O fim do surto
Depois de semanas, as autoridades decidiram levar os dançarinos para um santuário dedicado a São Vito. Lá, longe da música e do público, o número de casos começou a cair.
Alguns se recuperaram lentamente. Outros morreram pelo caminho. Mas aos poucos, a cidade voltou ao normal, deixando para trás um dos episódios mais misteriosos da história europeia.
A Dança da Peste hoje
O evento de 1518 continua inspirand documentários e séries, músicas como a faixa “Dancing Plague”, de Hozier, livros de história e filmes de terror e fantasia.
E não é à toa. Em um mundo que ainda enfrenta crises, pandemias e surtos coletivos de ansiedade, a história de Estrasburgo parece mais atual do que nunca.
Ela nos lembra que, às vezes, o maior inimigo não é o sobrenatural, é aquilo que carregamos dentro de nós.
