No meio do Oceano Ártico, entre a América do Norte e a Europa, está a Groenlândia (Kalaallit Nunaat – “Terra do Povo”), a maior ilha do mundo que, à primeira vista, parece dominada por gelo eterno e poucos habitantes.
Mas, por trás desse cenário inóspito, existe um palco de disputas geopolíticas que cruza história, guerra, economia e estratégia militar e que voltou ao centro das atenções no início de 2026.
Da Segunda Guerra ao auge da Guerra Fria
A importância estratégica da Groenlândia começou a se desenhar já nos anos 1940. Com a ocupação da Dinamarca pela Alemanha nazista, os Estados Unidos selaram um acordo de defesa com representantes dinamarqueses para impedir que forças do Eixo dominassem a ilha e pudessem ameaçar as rotas marítimas do Atlântico Norte.
Esse acordo permitiu que os EUA construíssem bases militares como a lendária Pituffik Space Base.
E também que mantivessem presença contínua durante a Guerra Fria, monitorando movimentações soviéticas e protegendo o chamado GIUK Gap: o corredor marítimo que liga Groenlândia, Islândia e Reino Unido e que era crucial para detectar submarinos e aeronaves em direção ao Atlântico.
Nessa época houve até tentativas oficiais de compra da ilha por parte dos EUA, ofertas que foram rejeitadas pela Dinamarca, que valorizava sua soberania.
O Ártico de 2026
Nos últimos 30 anos, com o aquecimento global derretendo o gelo ártico, a Groenlândia ganhou ainda mais peso geopolítico.
O recuo das geleiras está expondo rotas marítimas antes bloqueadas e recursos naturais ricos, entre eles depósitos de minerais essenciais para a tecnologia moderna, como terras raras e outras matérias-primas críticas.
O degelo também abre potencial para novas rotas comerciais que encurtam significativamente a distância entre mercados europeus e asiáticos, circulando pelo Ártico em vez de contornar continentes inteiros.
Minerais e tecnologia: o tesouro abaixo do gelo
Além de sua posição geográfica, a Groenlândia possui quantidades significativas de minerais considerados críticos para a economia global, incluindo 25 dos 34 materiais listados pela União Europeia como essenciais para tecnologia e defesa, de ímãs de motores elétricos a componentes de eletrônicos e hardware militar.
Embora a extração desses recursos seja ainda cara e complexa devido às condições extremas e regras ambientais locais, o interesse internacional é claro: quem dominar o acesso a essas reservas terá vantagem tecnológica e econômica nas próximas décadas.
O foco dos Estados Unidos
Nas últimas semanas, a Groenlândia voltou a ser manchete global por causa de declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que repetiu o desejo de que os EUA “tenham” ou até “tomem a ilha por qualquer meio, se necessário”, alegando motivos de segurança nacional.
Especialistas apontam que essa disposição agressiva não surge do nada: ela reflete uma competição crescente com Rússia e China no Ártico, onde essas potências também ampliam presença militar e econômica.
França, Alemanha, Noruega e outros membros da OTAN já se mobilizam para reforçar a defesa da Groenlândia e respaldar a Dinamarca, desencadeando um novo foco de tensões no norte.
No terreno diplomático, o governo groenlandês e a Dinamarca reforçam que a ilha não está à venda e defendem que sua segurança seja coordenada multilateramente, não unilateralmente pelos EUA.
Por que a Groenlândia importa para o mundo?
A resposta está no cruzamento entre história, geopolítica e futuro tecnológico.
- Localização estratégica: controle das rotas militares e comerciais do Atlântico e do Ártico.
- Recursos naturais: minerais críticos que definem competitividade tecnológica e industrial no século XXI.
- Clima e navegação: derretimento do gelo está transformando o Ártico de fronteira remota a palco de competição global.
- Alianças internacionais: tensões entre aliados históricos, como EUA e Dinamarca, mostram que a Groenlândia pode testar princípios de soberania, defesa coletiva e equilíbrio de poder.
