Desde o início da humanidade, muito antes da existência de hospitais, fórmulas infantis ou bancos de leite, havia um alimento capaz de garantir a sobrevivência dos recém-nascidos: o leite materno e a amamentação.
A amamentação não foi apenas uma forma de alimentar bebês. Ao longo dos anos, ela influenciou a sobrevivência das populações, ajudou a reduzir a mortalidade infantil, criou profissões, inspirou obras de arte, se tornou símbolo religioso e refletiu as transformações culturais de diferentes sociedades.
Celebrado em 1º de agosto, o Dia Mundial da Amamentação marca o início da Semana Mundial da Amamentação, criada para conscientizar sobre a importância do aleitamento materno para a saúde de mães e crianças.
Mas como diferentes civilizações enxergavam esse ato tão natural?
A amamentação na Pré-História
Muito antes da agricultura surgir, o leite materno era a única fonte segura de alimentação para os bebês.
Sem acesso a leite animal tratado, mamadeiras ou qualquer alternativa segura, a amamentação era essencial para a sobrevivência humana.
Pesquisas arqueológicas indicam que muitas crianças eram amamentadas por dois a quatro anos, e em algumas sociedades esse período podia ser ainda maior.
Além de alimentar, a amamentação fortalecia o sistema imunológico dos recém-nascidos por meio da transferência de anticorpos, algo que a ciência só compreenderia milhares de anos depois.
O Egito Antigo: um presente dos deuses
No Egito Antigo, a maternidade possuía profundo significado religioso.
Diversas pinturas mostram mães amamentando seus filhos, e uma das imagens mais famosas representa a deusa Ísis amamentando seu filho Hórus.
Essa representação atravessou séculos e influenciou até mesmo parte da iconografia cristã, especialmente imagens de Maria com o menino Jesus.
Entre famílias nobres, era comum recorrer às chamadas amas de leite, mulheres contratadas para amamentar os filhos da elite.
Grécia e Roma: entre filosofia e tradição
Na Grécia Antiga, filósofos como Aristóteles defendiam que o leite materno era o alimento mais adequado para o desenvolvimento infantil.
Entretanto, entre famílias aristocráticas, também era frequente a contratação de amas de leite.
Na Roma Antiga, essa prática se tornou ainda mais comum.
Muitas amas eram mulheres escravizadas, que alimentavam os filhos das famílias mais ricas enquanto, em alguns casos, eram separadas de seus próprios filhos.
Essa realidade revela como diferenças sociais também influenciavam a maternidade.
A Idade Média e a influência da Igreja
Durante a Idade Média, a amamentação continuou sendo amplamente incentivada.
A Igreja Católica valorizava a maternidade e frequentemente representava a Virgem Maria amamentando Jesus em pinturas conhecidas como Maria Lactans.
Ao mesmo tempo, entre a nobreza europeia, persistia o costume de enviar bebês para serem criados por amas de leite, principalmente porque mulheres da aristocracia eram incentivadas a engravidar novamente em pouco tempo.
Já entre camponeses, as próprias mães normalmente amamentavam seus filhos.
Povos indígenas das Américas
Antes da chegada dos europeus, diversos povos indígenas praticavam o aleitamento prolongado.
Em muitas comunidades, as crianças eram amamentadas por vários anos.
Essa prática ajudava a fortalecer o vínculo entre mãe e filho e contribuía para o espaçamento natural entre as gestações, já que a amamentação frequente pode reduzir temporariamente a fertilidade, embora não seja um método contraceptivo totalmente confiável.
A Revolução Industrial
No século XIX, a Revolução Industrial mudou a rotina das famílias, com mais mulheres trabalhando em fábricas e cidades crescendo rapidamente, muitas passaram a interromper a amamentação mais cedo, já que eram exigidas que voltassem logo ao trabalho.
Ao mesmo tempo, surgiram alimentos artificiais destinados aos bebês.
As primeiras fórmulas infantis ainda apresentavam muitos problemas nutricionais e sanitários, especialmente em uma época em que o tratamento da água e a esterilização eram limitados.
Como consequência, a mortalidade infantil aumentou em diversos locais.
O século XX e a queda da amamentação
Durante boa parte do século XX, campanhas publicitárias de fabricantes de fórmulas infantis passaram a apresentar esses produtos como símbolos de modernidade e avanço científico.
Em muitos países, profissionais de saúde chegaram a recomendar a substituição precoce do leite materno, especialmente em áreas urbanas.
Com o avanço das pesquisas médicas, porém, ficou evidente que o leite materno oferece benefícios únicos para o desenvolvimento infantil e para a saúde da mãe.
A partir das décadas de 1970 e 1980, organizações internacionais iniciaram campanhas para incentivar novamente o aleitamento materno.
A criação do Dia Mundial da Amamentação
Em 1992, a Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno criou a Semana Mundial da Amamentação.
O evento conta com apoio da Organização Mundial da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância.
Seu objetivo é divulgar informações baseadas em evidências científicas sobre os benefícios do aleitamento materno e incentivar políticas públicas de apoio às famílias.
O Brasil como referência mundial
Nas últimas décadas, o Brasil se tornou referência internacional em políticas de incentivo à amamentação.
Entre as iniciativas estão:
- uma das maiores redes de Bancos de Leite Humano do mundo;
- campanhas nacionais de conscientização;
- hospitais certificados pela Iniciativa Hospital Amigo da Criança;
- programas de apoio ao aleitamento materno.
Essas ações contribuíram para o aumento dos índices de amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida.
