Quando a primeira Copa do Mundo começou, em 1930, a competição ainda estava longe de se tornar o espetáculo global que conhecemos hoje.
O torneio organizado no Uruguai reunia apenas 13 seleções e tinha como objetivo aproximar os países através do futebol. Mas bastaram poucos anos para que a política e os regimes autoritários percebessem o enorme potencial do esporte como instrumento de propaganda.
Quase um século depois, a Copa do Mundo de 2026 mostra que futebol e política continuam inseparáveis.
A Copa dos anos 1930 e a ascensão do fascismo
A primeira edição da Copa, em 1930, aconteceu no Uruguai, mas foi em 1934, na Itália de Benito Mussolini, que o torneio passou a ser utilizado como ferramenta política.
O líder fascista italiano compreendeu rapidamente o poder do futebol sobre as massas. A Copa de 1934 foi transformada em uma vitrine do regime fascista, com cerimônias grandiosas, propaganda nacionalista e forte interferência governamental. Historiadores ainda debatem a pressão exercida sobre árbitros e dirigentes, mas não há dúvidas de que o torneio serviu para fortalecer a imagem internacional da Itália fascista.
Quatro anos depois, em 1938, o cenário europeu estava ainda mais tenso. A expansão da Alemanha Nazista e a crescente influência de Adolf Hitler já indicavam que uma nova guerra se aproximava.
Enquanto isso, a FIFA seguia promovendo o futebol como símbolo de união, ignorando em grande parte os sinais de que a Europa caminhava para uma catástrofe.
Pouco mais de um ano depois da Copa de 1938, começaria a Segunda Guerra Mundial.
O futebol nunca esteve separado da política
Ao longo da história, a Copa do Mundo foi frequentemente utilizada por governos e organizações para promover interesses políticos.
A competição atravessou ditaduras, guerras frias, boicotes e disputas ideológicas. Ao mesmo tempo em que promove integração cultural, também reflete as desigualdades e tensões do mundo em que está inserida.
Por isso, especialistas costumam afirmar que a Copa do Mundo é muito mais do que um torneio esportivo: ela é um retrato da época em que acontece.
Omar Artan e a controvérsia da Copa de 2026
Em 2026, uma das maiores polêmicas envolvendo o torneio não aconteceu dentro de campo.
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito melhor árbitro africano em 2025, faria história ao se tornar o primeiro somali a apitar uma partida de Copa do Mundo.
Apesar dele possuir credenciais da FIFA e visto válido, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e acabou excluído do torneio.
A decisão provocou críticas de dirigentes africanos e reacendeu debates sobre imigração, segurança e o real significado do slogan da FIFA, “Football Unites the World”.
Posteriormente, a UEFA anunciou Artan como árbitro da Supercopa da Europa, em uma demonstração pública de apoio ao profissional.
A posição da FIFA
A entidade presidida por Gianni Infantino afirmou que questões migratórias são responsabilidade dos países-sede e que não possui autoridade para revogar decisões tomadas pelas autoridades americanas.
A resposta foi considerada insuficiente por parte da comunidade esportiva, especialmente porque a organização promove a Copa como um evento universal e inclusivo.
Outras dificuldades envolvendo vistos e restrições de entrada também afetaram dirigentes e representantes de diferentes países durante a preparação para a competição.
Os Estados Unidos e o desafio da imagem internacional
A Copa de 2026 representa uma oportunidade para os Estados Unidos reforçarem sua posição. Ao mesmo tempo, o torneio ocorre em meio a debates sobre imigração, segurança e restrições de entrada adotadas pelo governo americano.
Críticos argumentam que impedir a participação de profissionais credenciados contradiz a ideia de integração defendida pelo esporte. Já autoridades norte-americanas sustentam que questões de segurança nacional devem prevalecer.
De Mussolini a 2026: o futebol continua refletindo o mundo
Se a Copa dos anos 1930 mostrou como regimes fascistas utilizaram o esporte como propaganda, a Copa de 2026 evidencia como questões geopolíticas, imigração e disputas diplomáticas continuam influenciando o torneio.
A história demonstra que o futebol nunca existiu em uma bolha.
Seja na Itália fascista de Mussolini, na Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial ou nas discussões atuais envolvendo Omar Artan, a Copa do Mundo sempre foi mais do que um campeonato.
Ela é um espelho das contradições, dos conflitos e das transformações de cada época.
E talvez seja justamente por isso que o maior evento do futebol mundial continua sendo, ao mesmo tempo, uma celebração esportiva e um palco onde a história se revela diante dos olhos de bilhões de pessoas.
