Nas primeiras edições do Super Bowl, entre as décadas de 1960 e 1980, o halftime era composto principalmente por bandas marciais, apresentações temáticas e performances locais.
O foco estava exclusivamente no jogo, e o intervalo servia apenas como entretenimento secundário.
Essa lógica começou a mudar quando a NFL percebeu um dado importante: a audiência costumava cair durante o intervalo. Era preciso criar algo que mantivesse o público diante da televisão.
Michael Jackson no halftime moderno
A transformação definitiva aconteceu em 1993, com a apresentação de Michael Jackson.
Pela primeira vez na história, a audiência do Super Bowl cresceu durante o intervalo, algo inédito até então.
O espetáculo coreografado, com narrativa visual e impacto emocional, mostrou que o halftime podia ser mais do que uma pausa: ele podia ser o evento principal do entretenimento. A partir desse momento, a NFL mudou sua estratégia e passou a convidar artistas globais.
Esse show não apenas redefiniu o intervalo do Super Bowl, mas também criou um novo padrão para apresentações ao vivo televisionadas.
Os anos 1990 e 2000
Após Michael Jackson, o Super Bowl passou a receber nomes que já faziam parte da história da música mundial. O intervalo se tornou um espaço de consagração.
Artistas como Diana Ross, U2, Paul McCartney, The Rolling Stones e Prince marcaram essa fase. Entre eles, o show de Prince em 2007, sob chuva intensa enquanto cantava Purple Rain, é frequentemente citado como o melhor halftime da história.
Essas apresentações consolidaram o Super Bowl como um evento que unia memória afetiva, espetáculo e simbolismo cultural.
Era das mega produções
A partir da década de 2010, o halftime passou por outra transformação. Com o crescimento das redes sociais e do YouTube, o show deixou de ser apenas um evento televisivo e passou a ser consumido globalmente em tempo real e sob demanda.
Apresentações como as de Madonna (2012), Beyoncé (2013) e Katy Perry (2015) elevaram o nível de produção, com cenários cinematográficos, efeitos especiais e narrativas visuais pensadas para viralizar.
O intervalo do Super Bowl deixou de ser apenas música e se tornou uma experiência audiovisual pensada para a cultura digital.
Super Bowl do pop à música latina
Nos anos seguintes, o halftime passou a refletir mudanças culturais mais amplas. A presença de Shakira e Jennifer Lopez em 2020 marcou um momento histórico de valorização da cultura latina no maior evento esportivo dos EUA.
Em 2022, o show liderado por Dr. Dre, com Snoop Dogg, Eminem, Mary J. Blige e Kendrick Lamar, consolidou o hip hop como parte central da cultura americana, algo impensável décadas antes.
Mais recentemente, nomes como Rihanna, Usher, Kendrick Lamar e Bad Bunny mostram que o Super Bowl acompanha as transformações da música global e do comportamento do público.
O show do intervalo se tornou um fenômeno porque reúne três forças poderosas: a maior audiência televisiva dos EUA, a indústria musical global e o impacto das redes sociais.
Uma apresentação no halftime pode redefinir a carreira de um artista, impulsionar streams, ditar tendências de moda e gerar debates culturais e políticos.
Não por acaso, muitos artistas aceitam se apresentar sem cachê direto, em troca da visibilidade global, como é provável que tenha sido o caso de Rihanna em 2023, que coincidiu com o lançamento de um produto de sua marca Fenty Beauty e ela apareceu em seu show usando esse produto.
Bad Bunny e Green Day no Super Bowl
O impacto das apresentações ligadas ao Super Bowl 2026, com Bad Bunny no halftime e Green Day na abertura, vai além do entretenimento musical.
No caso de Bad Bunny, sua presença marca um ponto histórico: ele se tornou o primeiro artista latino e de língua espanhola a liderar sozinho o halftime show, reforçando a estratégia da NFL de ampliar audiência global e principalmente latina, público que já soma dezenas de milhões de fãs nos EUA.
Além do aspecto comercial, especialistas e analistas culturais apontam que o show ganhou dimensão política e simbólica, com debates sobre imigração, identidade latina e representatividade cultural, mostrando como o evento se tornou também palco de narrativas sociais contemporâneas.
Já o Green Day, escalado para a abertura oficial do Super Bowl 60, reforça outro tipo de impacto: o da memória cultural do rock e da identidade local (a banda é da região da Califórnia, onde ocorreu o jogo).
A apresentação faz parte da celebração histórica do aniversário do Super Bowl e funciona como aquecimento simbólico para o evento, conectando gerações de fãs.
Ao mesmo tempo, a banda também trouxe debate político para o entorno do evento, mantendo sua tradição de posicionamento público, o que mostra como o Super Bowl, hoje, é uma vitrine cultural que mistura esporte, música e discurso social.
